7 de julho de 2010

NOSSO SENTIDO DE UTILIDADE

Nossas relações humanas são fortemente marcadas pelas regras da utilidade. Somos o que fazemos. Boa parte do nosso tempo é investido em nosso aprimoramento técnico, profissional. Coisas que estão ligadas ao nosso desempenho como profissionais.


O grande problema não é investir no aprimoramento técnico, mas sim em não saber viver as transições naturais do processo da vida. Não seremos eternamente jovens, competentes e úteis. Haverá um momento em que alguém nos substituirá, porque cumprirá melhor as exigências do que fazemos.


Chegará o momento em que teremos que sair de cena. É nesta hora que precisamos assumir uma outra forma de competência. Teremos que lidar com nossa inutilidade e esbarrar em nossa humanidade, sem os atrativos de tudo o que foi útil em nós.


Será o tempo de redescobrir os significados antigos, as coisas para as quais não tivemos muito tempo , mas que condensam possibilidades bonitas que precisamos explorar.


Quando pautamos nossa vida a partir de nossa utilidade, corremos o risco de nos desprender de nossos verdadeiros significados. É muito comum as pessoas se ocuparem de constantes aperfeiçoamentos técnicos. Mas é raro encontrar pessoas cuidando do futuro a partir de outras preocupações, como o cultivo de laços fecundos .


Precisamos, ao longo da vida, fazer-nos a pergunta cruel : Depois que perdermos a utilidade, quem vai querer continuar ao nosso lado ? Será que estamos bem posicionados entre os horizontes da utilidade e os horizontes do significado ?


Texto retirado do livro : QUANDO O SOFRIMENTO BATER A SUA PORTA

23 de junho de 2010

CHORAR JUNTO

Vou contar-lhes uma história da qual eu gosto muito: a de um menino pequeno cuja mãe mandou-ou fazer algo na rua e ele demorou muito para voltar.
Quando finalmente regressou, a mãe perguntou-lhe :

- Onde você estava ? Fiquei preocupada.

E o menino respondeu :

- Encontrei um menino da vizinhança com a bicicleta quebrada e que chorava porque não podia consertá-la.Fiquei triste e parei para ajuda-lo.

A mãe perguntou :

- E você sabe consertar uma bicicleta ?

O menino respondeu :

- Não, mas me sentei junto a ele e ajudei-o a chorar.

Quando as coisas estão quebradas e ninguém consegue consertá-las , há sempre algo que podemos fazer : sentar e ajudar os outros a chorar , para que não chorem sozinhos.

Trecho retirado do livro
"QUANDO AS COISAS RUINS ACONTECEM AS PESSOAS BOAS", de Harold Kushner

16 de junho de 2010

SOBRE RÓTULOS E ASSOMBRO

Um rótulo é uma máscara que a vida usa.

Usamos rótulos na vida o tempo todo. "CERTO" , "ERRADO", "SUCESSO", "FRACASSO","SORTE", "AZAR" podem ser modos tão limitantes de ver as coisas quanto "diabético", "epiléptico", "maníaco-depressivo" ou mesmo "inválido" . Colocar rótulos determina uma expectativa de vida muitas vezes tão imperiosa que não conseguimos mais ver as coisas como elas realmente são. Essa expectativa, com frequência, nos dá um senso de familiaridade falso com relação a alguma coisa que , na verdade , é nova e sem precedentes. Estamos num relacionamento com nossas expectativas , e não com a própria vida.


E isso nos faz pensar que podemos ser tão prejudicados pelo modo como vemos uma doença quanto pela própria doença. A crença nos prende ou nos liberta. Os rótulos podem transforma-se em profecias que se cumprem só porque foram feitas. Estudo sobre mortes no vodu indicam que , em certas circunstâncias , a crença pode até matar.


Talvez precisemos levar muito menos a sério nossos rótulos e até mesmo nossos especialistas. Alguns anos atrás , fiz parte da banca examinadora da tese de uma mulher do meio-oeste que estava estudando a remissão espontânea do câncer. Entre os que responderam a seu anúncio no jornal procurando pessoas que achavam ter tido uma experiência de cura incomum, estava um agricultor que obtivera ótimos resultados apesar de um prognóstico muito sombrio . Uma noite, por telefone , ela me contou sobre esse homem. Julgava que os resultados que ele conseguira estivessem ligados à sua atitude. "Ele não aceitou", disse ela.


Confusa, perguntei se ele havia negado que tinha câncer. Não, ela respondeu , não negara . Simplesmente ele adotara quanto ao prognóstico do médico a mesma atitude que tinha para com as palavras dos peritos do governo que analisavam o solo de seus campos. Como eram homens instruídos , ele os respeitava e ouvia atentamente enquanto lhes mostravam os resultados de seus testes e lhe diziam que o milho não cresceria naquele campo. Ele levava em conta as opiniões apresentadas. Porém , como contou à minha aluna, "boa parte do tempo o milho cresce mesmo assim".


Pela minha experiência, um diagnóstico é uma opinião , e não uma previsão . Como seria se mais pessoas aceitassem a presença do desconhecido e acolhessem as palavras de seus especialistas médicos da mesma maneira ? O diagnóstico é câncer. O que isso irá significar ainda veremos.


Assim como um diagnóstico , um rótulo é uma tentativa de assegurar o controle e administrar a incerteza. Ele pode nos dar a segurança e o conforto de uma conclusão mental e nos encorajar a não pensar mais no assunto. Mas a vida nunca chega a uma conclusão ; a vida é processo , até mesmo mistério. A vida só é conhecida por aqueles que encontraram um meio de estar à vontade com mudança e com o desconhecido. Considerando a natureza da vida, pode não existir segurança, mas apenas aventura.


Trecho retirado do livro HISTÓRIAS QUE CURAM, de Rachel Naomi Remen

10 de junho de 2010

MÃE É UMA MULHER QUE SONHA

É simples e confortável sonhar com um futuro bri­lhante, um mundo sem violência, um planeta que estará protegido e sustentável. E que a próxima geração terá aprendido a reciclar, a controlar o aquecimento global, a proibir a venda indiscriminada de armas e a não aceitar passivamente a corrupção política.

Que todos os filhos serão lindos, inteligen­tes, bem-sucedidos, perfeitos, vivendo em uma sociedade de paz. Sonho de mãe não tem limite.

Mas parâmetros, tão grandiosos, não serão de nenhuma ajuda na hora de educar um filho. Porque o mundo deles não será assim.

“Ao refletir sobre o que se espera para minha filha, resolvi sonhar em preto e branco, em vez de esperar um futuro inalcançá­vel”.

Meu sonho realista é que ela perceba que pequenos gestos cotidianos de proteção ao planeta não são inúteis. Que adianta, sim, reciclar o lixo, usar ecobags, evitar copinhos de plástico, e fechar a torneira enquanto escova os dentes, mesmo que o vizinho não o faça.

Eu sonho que a minha filha seja uma lutadora, que valori­ze a independência, com a certeza de que nada cai do céu, que tem de estudar muito para vencer, que as barreiras, as dificuldades e os desafios são inevitáveis e que conseguir superá-los dá uma inigualável sensação de poder.

Sonho que ela não deixará de ter compaixão pelos aflitos e despossuídos só porque teve o privilégio de uma infância plena de amor e conforto. Que será solidária e uma cidadã consciente de que tem um papel na sociedade.

Sonho que minha filha vai saber detectar na hora qual­quer proposta obscura e sem ética que for feita no trabalho. E saberá recusá-la com firmeza, sem medo de perder o emprego, por mais que a pressão seja forte e as vanta­gens tentadoras. Que ela não duvidará nem por um minu­to de que perder a integridade é, infinitamente pior do que perder um lucro fácil.

Eu sonho uma bela história de amor para minha filha. Mas que só será cor-de-rosa se houver respeito, companheirismo e admiração mútuos. Que ela compreenderá que o amor verda­deiro está muito mais próximo da amizade do que da paixão. Sonho que ela saberá enxergar qualquer sinal de perigo em um comportamento ríspido, controlador e excessivamente ciumento, mesmo que esteja naquela fase de encantamento que deixa a mente turva. Homens violentos sempre dão pistas. E homens que têm desvio de caráter jamais mudarão.

Enfim, sonho que a minha filha me dará netos. E que saberá sonhar os sonhos certos para eles. Mas essa é uma outra história – a história que ela sonhará quando for mãe.




Texto de Márcia Neder, Diretora de Redação da Abril

9 de junho de 2010

CADA PESSOA É COMO UM DIAMANTE QUE PRECISA SER LAPIDADO

A lapidação é um trabalho que exige sabedoria, precisão e paciência.

Cada pessoa é um diamante, que vem ao mundo em estado bruto: o trabalho de todos nós é descobrir como se lapidar para se transformar numa pedra preciosa de grande valor.

Nascemos e crescemos com determinadas características : mais explosivos, mais impacientes, tímidos, egoístas, intolerantes, malvados, irritadiços, medrosos ou impulsivos.

No decorrer da vida, muitas pessoas , situações e acontecimentos participam ativamente desse processo de lapidação: os pais e outros membros da família que nos influenciam , o grupo social que nos encoraja ou nos oprime, o ambiente de estudo e de trabalho que nos exige, amolda, direciona.

O que temos em excesso que precisamos abrandar ? O que nos falta que devemos desenvolver ou expandir ?

É importante reconhecer a influência ( positiva ou negativa ) das pessoas em nossa formação, mas é essencial acreditar que , na verdade, somos nós os principais responsáveis por nossa lapidação. Precisamos descobrir o poder de se modificar e buscar maneiras de viver melhor. Culpar os outros pelas próprias limitações pode ser mais confortável, mas resulta na perda da possibilidade de se construir.

É preciso que cada um pense assim : qual será o trabalho de lapidação necessário para que eu me coloque no caminho do equilíbrio interior , que vai me proporcionar paz, serenidade e força ?

Esse é um trabalho para a vida inteira : para crianças, jovens, adultos e idosos. E que ninguém se iluda : é uma tarefa cansativa e, às vezes, muito dolorosa ! Mas só ela nos permite atravessar os períodos difíceis sem nos quebrar por dentro e viver com mais alegria os períodos fáceis.


Texto retirado do livro : Histórias da Vida Inteira, de Maria Tereza Maldonado

31 de maio de 2010

O PODER DA ESCUTA

As pessoas vem curando umas às outras desde o princípio. Muito antes de existirem cirurgiões, psicólogos, oncologistas e clínico-gerais, já cuidávamos uns dos outros. A cura de nossos males presentes pode estar em reconhecer e recuperar a capacidade que todos nós temos para curar uns aos outros, no poder imenso que há na mais simples das relações humanas : a força de um toque, a benção de um perdão, a graça de alguém aceitá-lo exatamente como você é e descobrir em você uma bondade insuspeitada.

Todo o mundo que está vivo sofreu. É a sabedoria adquirida com nossas feridas e com nossas experiências de sofrimento que nos capacita para curar. Os conhecimentos especializados curam, mas pessoas que sofrem são mais bem curadas por outras pessoas que sofrem . Somente outras pessoas sofredoras podem compreender o que é necessário, pois a cura para o sofrimento está na compaixão, não nos conhecimentos especializados.

Ouvir é o mais antigo e talvez o mais poderoso instrumento de cura. Com frequência , é pela qualidade do modo como ouvimos e não pela sabedoria de nossas palavras que conseguimos efetuar as mudanças mais profundas nas pessoas que nos cercam.Quando ouvimos , oferecemos com nossa atenção uma oportunidade para a integridade. Nossa atenção cria um santuário para as partes sem lar que existem dentro da outra pessoa. As que foram negadas, desprezadas , desvalorizadas por ela mesma e pelos outros. As que estão ocultas.

Nesta cultura, a alma e o coração com frequência ficam sem lar.

Ouvir cria um silêncio sagrado . Quando você escuta generosamente as pessoas, elas podem ouvir a verdade em si mesmas, mesmo que pela primeira vez. E no silêncio de ouvir você pode conhecer a si mesmo em toda pessoa. Por fim, você pode acabar sendo capaz de ouvir, em todas as pessoas e além de cada uma, o oculto cantando baixinho para si mesmo e para você.



Retirado do livro : HISTORIAS QUE CURAM , de Rachel Naomi Remen

29 de maio de 2010

PRECE


Quando rezamos ,não mudamos o mundo, mudamos a nós mesmos. Mudamos nossa consciência. Passamos de um tipo de consciência individual, isolada, voltada para as coisas práticas , para uma conexão mais profunda com a realidade, o mais abrangente possível. E então, a questão:
“Como você se recobrou ? “ torna-se mais uma questão sobre mistério do que sobre eficácia. Um tipo de questão muito diferente.

Em seu aspecto mais profundo, a prece é uma declaração sobre a causalidade.
Recorrer a uma prece é libertar-se da arrogância e vulnerabilidade de uma causalidade isolada e individual. Quando rezamos, paramos de tentar controlar a vida e nos lembramos de que pertencemos a ela. É uma oportunidade de vivenciar a humildade e reconhecer a graça.

Às vezes, as preces mais poderosas são também as mais simples. Certa vez, quando eu estava deitada na minha mesa de operação à espera da anestesia, um dos cirurgiões pegou minha mão e perguntou se eu gostaria de juntar-me a ele e à sua equipe em uma prece. Espantada, assenti com a cabeça. Ele reuniu a equipe ao redor da mesa de operação para um momento de silêncio, após o qual ele disse serenamente :
"Que possamos ser ajudados a fazer o que for mais certo"

Essa prece tradicional dos índios americanos parece um modo bastante simples de resignar-se à suprema causalidade. Por meio dela, em uma sala de cirurgia equipada com o a mais avançada tecnologia, não estamos sozinhos em casa. O alento que o cirurgião me ofereceu foi autentico. Senti meus temores em relação ao resultado dissipar-se , e adormeci com a anestesia apegando-me àquelas poucas palavras, com a mais profunda sensação de paz. Assim como todas as preces genuínas, esta prece é um modo poderoso de acolher a vida, encontrando um lar em qualquer resultado e lembrando que pode haver razões além da razão.


A prece é um movimento do domínio para o mistério. Eu costumava orar por meus pacientes. Hoje, oro também por mim. Às vezes, rezo por compaixão, porém com mais freqüência rezo para não causar dano, a grande qualidade espiritual incorporada ao juramento de Hipócrates. Como ser humano, sei que nunca posso esperar ter a profundidade e amplidão de perspectiva para saber se qualquer uma de minhas ações irá em última análise causar mal ou curar. Contudo, minha esperança é poder ser usada para atender um propósito santo sem jamais ficar sabendo. Por isso, às vezes, antes de atender um paciente, faço uma pequena prece sem palavras : Compreender o sofrimento está além de mim.Compreender a cura, também. Mas neste momento, estou aqui. Use-me.


Retirado do livro : HISTÓRIAS que curam , de Rachel Naomi Remen